Nos tempos que hoje vivemos é para mim uma afronta os festejos do 25 de Abril. Bem sei que os valores proclamados de Abril são os valores da liberdade, mas também sei que os dias que vivemos hoje são dias que nunca vivemos em democracia.

O facto de me opor aos festejos do 25 de Abril, nada tem a ver com questões ideológicas, não entrando nessa argumentação que a esquerda portuguesa tanto gosta de pregar, tem sim a ver com o confinamento social imposto num período difícil para todos os portugueses. Se os políticos exigem, e bem, que não nos possamos despedir dos nossos entes queridos, não podendo abraçar quem nos é próximo, são esses mesmos políticos que deviam exigir a si atitudes adequadas e de responsabilização para com toda a sociedade.

Tudo isto é ainda mais chocante quando a 2ª figura do Estado ridiculariza a opinião pública. Demonstrou, uma vez mais, a parcialidade com que desempenha as suas funções e dificilmente conseguimos encontrar, na nossa história democrática, um Presidente da Assembleia da República que exerce de forma tão pouco democrática a sua função, chegando a considerar Ferro Rodrigues como o pior a desempenhar esta função. A política é a arte de servir as pessoas, neste caso, para além de não servir, ainda desrespeitou todos os esforços que os portugueses fizeram e fazem.

O segundo ponto remete-me para a questão da libertação de reclusos. Num país democrático como o nosso e em pleno século XXI, parece-me absurdo que queiram usar a pandemia Covid-19 como um pretexto para combater um sistema prisional sobre lotado. É verdade e sabido por uma grande parte da sociedade, que o Presidente da República faz indultos todos os finais do ano, mas devido à pandemia esses indultos foram muito superiores aos que costumam ser feitos. No meu ponto de vista estes indultos foram feitos sem grande estudo de caso, exemplo disso é a libertação de um prisioneiro que matou um polícia com 22 tiros há 15 anos atrás. O pretexto utilizado nestas situações não é de todo o mais adequado e sensato para os tempos que vivemos. Não podem dizer para não sairmos de casa e fazer o maior confinamento social possível, quando no mesmo momento libertam presos com medo que se espalhe o vírus pelas cadeias. Antes de ter sido tomada a medida extrema de libertação de reclusos, deviam ter sido estudadas outras formas de atuar. Na minha opinião medidas como: o recluso não sair da cela, sendo a refeição distribuída por guardas prisionais; rotação de 14 em 14 dias nas equipas de guardas prisionais; existir horários específicos para evitar aglomerados e também proibir as visitas do exterior seriam medidas suficientes para a não propagação do vírus.

Por último, e para mim o ponto mais importante, a economia. Uma grande parte da sociedade só se preocupa com o momento, mas a mim o amanhã da nossa economia preocupa-me ainda mais. Vivemos tempos nunca vividos, uma crise que abrange tanto o sistema económico como o sistema de saúde. Quando os nossos dias voltarem ao mais normal possível e as empresas começaram a retomar a sua atividade, vamos ter de estar o mais preparados possível para os tempos económicos muito difíceis que se avizinham. Muitos de vocês que estão agora a ler este texto estão em regime de lay off, mas num futuro poderemos estar desempregados ou a nossa empresa estar numa situação de liquidez muito complicada. Para mim uma medida fundamental a curto/médio prazo é a fiscalização séria e pormenorizada por parte do Estado às empresas que receberam apoios. Penso que esta medida vai evitar burlas, que sempre existem em tempos de crise, como o caso de Pedrogão. Esta mesma prevenção permitiria ao Estado ter uma maior folga financeira e, quem sabe, até consiga garantir diversos postos de trabalho.

Nos últimos tempos tenho ouvido falar em nacionalizar empresas, algo que vejo ser inevitável, no entanto é bom relembrar que o Estado não é bom patrão, nem muito menos motor da economia, é sim regulador da economia. Sendo assim fulcral que este assuma as suas funções de fiscalização e não de gestor, um Estado detentor de grande parte das empresas não é, de todo, funcional.

Em suma, espero que os dias de amanhã sejam bem melhores que os dias de hoje, e que os de hoje sirvam de aprendizagem. Uma aprendizagem que a gestão pública da saúde e da economia nacional não se faz apenas com o presente em mente.

É necessário uma visão para  Portugal, só assim iremos estar preparados para desafios como os que vivemos hoje.

Carlos Rodrigues

28 anos. Licenciado em Ciência Política no ISCTE. Residente na Freguesia de Agualva e Mira Sintra