Um dia, vai acontecer


Aqui há uns dias saiu, numa publicação respeitável, um artigo que noticiava que as mulheres compunham cerca de 88% dos conselhos de administração das empresas em Portugal – longe vão os dias da lei da paridade e da falta de representatividade das mulheres nos órgãos de decisão das empresas.

Afirmava o artigo que as mulheres, como parte essencial da sociedade e geradoras de riqueza para as empresas, eram fulcrais, como os homens há muitos anos antes, no processo decisório das empresas – longe vão os dias em que as mulheres eram vistas como frágeis seres da sociedade.

O artigo realçava, ainda, que os homens tinham adoptado uma postura activa na mudança do paradigma social e tomaram a seu cargo mais responsabilidades familiares, nomeadamente com os filhos, familiares idosos e na divisão das tarefas domésticas – longe vão os dias em que os homens se sentavam no sofá e gritavam: “Maria, traz-me uma cerveja!”, enquanto as mulheres trabalhavam mais 1 hora e 45 minutos que os homens em tarefas domésticas.

Julgavam esses homens que as mulheres transportavam consigo preocupações associadas à maternidade e à sua qualidade de principal suporte familiar que eram muito úteis na gestão de pessoas, no seio empresarial – longe vão os dias em que a maternidade e o suporte à família era visto como um entrave à progressão na carreira.

Estes homens viam nas mulheres o motor da mudança, do momento em que a sociedade cumpria aquilo que a Constituição e a Declaração dos Direitos Humanos pregava: ninguém será discriminado em razão do sexo – longe vão os dias em que havia trabalhos de homens e trabalhos de mulheres.

Em conjunto com as mulheres, estes homens promoveram o alargamento dos direitos associados à parentalidade aos pais, para permitir às mães que assim quisessem regressar mais cedo ao trabalho, sem prejuízo para as suas carreiras – longe vão os dias em que as pessoas não podiam organizar a sua vida familiar conforme queriam.

O artigo mencionava ainda a profunda alteração educacional em Portugal, que tinha levado à inexistência de mortes de mulheres por violência doméstica no último ano – longe vão os dias em que, na véspera do Dia Internacional da Mulher, surgiam notícias da morte de 11 mulheres por violência doméstica desde o início do ano.

Mencionava igualmente que as mulheres vítimas de violação, abuso sexual e assédio sexual tinham sido devidamente acompanhadas e os responsáveis tinham sido levados à justiça – longe vão os dias em que as mulheres temiam contar os episódios desumanos aos quais tinham sido sujeitas por medo, vergonha, receio.

Esta alteração estrutural ocorrida em Portugal, noticiava o artigo, tinha acabado com os rótulos de mandona, arrogante, cabra e outro vocabulário mais colorido, dados às mulheres que se encontravam em posições de poder ou outras – longe vão os dias em que um homem assertivo era um bom chefe e uma mulher assertiva era uma histérica.

Este artigo intuía que as mudanças na sociedade portuguesa tinham dado origem à eleição da primeira primeira-ministra portuguesa cujo executivo era composto em cerca de 53% por mulheres, numa total correspondência à população portuguesa – longe vão os dias em que os executivos eram compostos maioritariamente por homens e, por vezes até, por familiares.

Viram este artigo de que vos falo? Eu também não, mas, um dia, verei.

Feliz Dia Internacional da Mulher #iwd

Joana Fernandes Bernardo

Advogada Mestrado em Direito pela UCP Residente na Freguesia de Belas